domingo, 8 de junho de 2008

RE-CONFIGURAÇÃO DA CRIATURA

Venho em missão de paz,nada demais.

Depois de tantos “ais...” ,

de olhar pra nós, de olhar pra traz

e esperar no cais alguns finais,

perguntei de nós:

O que o hoje tráz?

Constatei sinais.



ou



Venho em missão de paz, nada mais.

Constatei sinais.


Agora sei o que não quero.

E isso é formidável, formidável demais.

Abaixei as armas! Ah... coisa ruim não se mata !

Mas é claro que não!


Aprendizado: "Coisa ruim a gente en-cara e questiona o bem e o mal que faz."


Exercício de amor próprio sim!


Limpei o barraco, pintei de paz, mas havia sujeira, muita sujeira por traz.

Poeira me secou os olhos, oculista me passou receita...

De lentes novas, dentro de mim, Himalaia particular, sentei conosco.

Logo em seguida , avistamos o mundo. Viajem!

Investiguei profundamente e mais honestamente minha mitologia pessoal:

pra começar, lembrei de Aquiles, o maior guerreiro de Tróia;

lembrei-me também de sua cólera que quase causa a derrota dos exércitos gregos.

Muito rapidamente um axônio associou-se à outro, remetendo numa sinápse minha lembrança à Eva,aos tons dos fios dos seus cabelos , aos sabores, cores e cheiro dos vinhos bons que bebemos , aos sentimentos melódicamente felizes das canções que cantamos, que cantamos e cantamos.
Mas , para os que não sabem cantar o canto dos que cantam fere.

Por isso e enquanto isso, Adão nos perseguia mas... Eva permitia.

A cobra, sempre entre nós.

Dormimos juntas . Sexo? Não, não ! Não fizemos sexo.

Tambem não comi da maça, mas comi dos pães de queijo saborosos e quentinhos.

Para aplacar o seu veneno , lhe fiz iguarias; Fartos foram os banquetes.

Me diverti à bessa. Eu bem que gostava daquela cobrinha metida a gente.

Tanto que coloquei carinho e expectativas em tudo que fiz, dupla que não dá certo.

A cobra, era um anjinho decaído chamado: Lúcifer.
Antigamente, amigo de Deus, porém, um dia, andou querendo ser Deus, aí já viu né???

Tive que mandá-la à merda e ela muito desapontada , disse à Eva:
"Deus não lhe disse a verdade.
Você não vai morrer se comer daquela árvore.
Vai ficar tão sábia como Deus"

Ah! Eva! Li seus pensamentos, sabia?

De alguns, tive medo.

Daqueles lembra-se? Os de imagens confusas e tão nítidas.


Compreendi a vingança

Amamentando as vítimas

Me senti

Impotente

Longe do

Amor


Na ida, nem um adeus ... na volta, xeque mate!

Tava na cara que dei à tapa o tiro no peito !

Dor , dor , dor, adoeci.

Jorrei as águas do mar.

Na última enchente entendi o jogodas marés . Saí dele .

Me coloquei nos outros, na medida do possível.

Perdoei meus erros , te deixei com os seus, menos amigos que eu.

Aprendi a catar feijão; os ruins, pro lugar deles (o lixo )

Restaram muito poucos mas bons grãos , os quais me alimentaram a alma . Rezei por nós.

Por fim, escutei meu corpo e espreguicei . Da cabeça, até os dedinhos mindinhos dos pés eu espreguicei.E foi bom.

Tirei os pontos,

bebi da chuva,

lavei a alma,

me dei banho,

não coloquei perfume,

só, troquei de roupa

abracei o mar,

escutei os santos,

cheirei os anjos,

compus um samba lindo.

Pisquei pra Deus,

fiz as malas,

mudei de estado,

saí do umbigo

e te agradeci

ao descobrir

que apesar de tudo que te cedi

e deixei contigo

foi através de ti ,

que encontrei comigo.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

"Quebras de sonoridade"

                                                                             
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A Janela

No meu quarto tem uma janela
Que dá pra sua
Todos as manhãs me debruço nela
E é daqui que eu te vejo
Feito árvore a florir
É daqui que eu te festejo

No meu quarto tem uma janela
Que dá pra sua
Todos as tardes apoio os meus braços nela
E é daqui que eu te vejo
Feito árvore a frutar
É daqui que eu te desejo

No meu quarto tem uma janela
Que dá pra sua
Todas as noites, encosto os meus seios nela
E é daqui que eu te vejo
Feito árvore a cantar
É daqui que eu te cortejo

No meu quarto tem uma janela
Que dá pra sua
Todas as madrugadas deito o meu coração nela
E é daqui que eu te vejo
Feito árvore a chorar
É daqui que eu te beijo

No meu quarto tem uma janela
Que é sua.
TROPICÁLIA


Sou brasileira, estudante
De cabelos longos encaracolados
Uso roupas escandalosamente coloridas
Estilos da contracultura hippe assimilados

Em relação à música e à política
Ao comportamento e à moral vigente
Ao corpo , ao sexo e ao vestuário
Tenho sim, um gosto irreverente

Sou rock e psicodélica
Pela guitarra elétrica , tenho paixão!
Mas também sou bossa nova, samba, rumba
Sou bolero, sou baião !

Sou ruidosa, eletrificada,
Sincrética e inovadora,
Desclassificada, escancarada
Sou aberta e incorporadora

Minha turma é da pesada
Irmãos de uma nova estética
É proibido proibir em toda arte,
Principalmente na poética

Sou Ponteio e Capinam
Sou Mutantes e Tom Zé
Sou Torquato e Duprat
Nara Leão e Jards Macalé

Meu brother Caetano
Me fez nome de canção
E com Gil , Domingo no Parque,
Vou fazer a louvação!

De Nelson Motta sou o manifesto
“A cruzada tropicalista”
Publicada na Última Hora
Uma bem-humorada conquista

Com Oswald de Andrade e Augusto de Campos
Sou poesia concreta , vanguardista
De astronautas e discos voadores
Sou um Brasil futurista

Sou a Terra em Transe, de Glauber Rocha
Sou o grande penetrável e o Jardim Botânico de Hélio Oiticica
Sou Panamérica de José Agripino de Paula
Apocalipopótese , sou a marca do que fica !

Já fui presa e exilada
Fui a cobra, a maçã e Adão
Soy Loco Por Ti América
Fui Eva, uma puta-revolução

Sou Pasquim, continuo a luta
Não quero prêmios pelo que faço
Rejeito + aceito = rejeito,
Teresinhaaaaaa , sou Chacrinha,
Aquele Abraço!
“ ALMA, AMIGA"


Não... sete vezes não , minha querida!
Tirar-te o alimento, o ar que respiras?
Como virias à mim, sem forças,
O físico sem ânimo, Anima partida?

Sei bem o quanto me desespero
No fundo, me perco, é lá que me recupero
Calma amor meu, companheira, amiga
Nada em ti me obriga

Jamais deixarei de sorrir-te
Porque sentir dor nessa imaginária ferida ?
Há um vazio transparente,
Intervalo necessário até uma outra ida
A me preencher, espero,
Refazendo em mim nova imagem esculpida

Mas enquanto quiseres ver não haverá ausência
Asseguro-te que o amor em mim não finda.

Te sou grata pelo Neruda
E pelas palavras que geram dele
Clareza de imagem linda
Que de certo tu, não só através dela,
me fizestes entender
que entendestes parte
mas nem tudo ainda,

É que és tu quem me fazes sorrir
És tu que me dás vida!
Hospede inúmeras fotos no slide.com GRÁTIS!

"DI EU PARA SEU OTÁVIO MESSIAS"

OUTRO DIA NO ORKUT
VI SEU NOMI APARICÊ
POIS INTÃO Ô SEU OTÁVIO
VIM AQUI LHE RESPONDÊ
À DISPEITU DESSI ARTISTA
DO MENINO REPENTISTA
TENHO MUITUQUIDIZÊ.

ÀS SEXTA NA TELINHA
O CUMPADI HÁ DI SABÊ
APARECE NO SILSTEMA,
UM POGRAMA DA TV!
DUS CABELU MARELINHU
É SUJEITU BEM BAIXINHU
MAS VALENTI PRA VALÊ

INSCREVE NUM TAR DE BROG
E É LINDIO DI MORRÊ
AGORA NU CINEMA
É MARQUINHU EM “PODICRE”!
É DI GENIALIDADE
É DI MUITA IDENTIDADE
SEU MESSIAS, VÁ LÁ VÊ!

FAIZ CARRANCA DÁ SORRIZU
LAMPIÃO ISFRAQUICÊ
FAIZ A GENTI SI LASCÁ
OS INTESTINU DUÊ
TAMBÉM QUÉ SÊ DRAMÁTICU
IMAGINI QUE FANTÁSTICU
O QUE DU NUM VAI FAZÊ ?

NU TEATRO OTRO DIA
UM TAR DE ZÉ EU FUI VÊ
O GREGÓRIO MAIS TRES CABRA
CARUSO, QUEIROGA E ADNET
RAPÁ... FIQUEI ARRETADA
NO REPENTI A RAPAZIADA
DEIXA NADA A DEVÊ

MUDANDO O RUMO DA PROSA
SI QUISÉ APARICÊ
PRÁ TOMÁ UMA BEBIDINHA
UM PRAZÊ AVERA DI SÊ
MÓ DI INCHÊ A CANEQUINHA
QUE EU VI LÁ NA FOTINHA
DO ORKUT COM ÔCE

E FALÁ MAIS DE GREGÓRIO
VAMU JUNTU INDOIDICÊ
FUCHICÁ NA INTERNET
ELE IRÁ NOS ADD!
ELE É BÃO QUI NEM DIACHU
É SUPIMPA ! Ô CABRA MACHO !
ESSI TAR DUVIVIER !


GRANDE, a miniatura.

Hoje, lembrei de Nizeth, amiga de infância e colégio. E posso garantir que foram lembranças sorridentes. Nizeth, além de criança agitada, travessa, alegre, inteligente era também, uma EEDMDAPB - Elaboradora Exímia Das Mais Diversas Artes Em Promover Bagunças.
Onde encontrava uma brecha, lá estava ela arquitetando o plano A, e calculando a possibilidade de falhas pelo percurso trazia na manga o plano B e o C. Uma estrategista nata.

Os olhos verdes claros sobressaiam diante da pele alva e seu cabelo loiro, até os ombros, permanecia sempre desgrenhado. E ela gostava de ser assim, descabelada e feliz. Nosso colégio, uma manancial de regras a cumprir. A pior de todas: o uniforme. Meia três quartos branca, sapato Vulcabrás ou bailarina, saia cinza pregueada, camisa meia manga - e a quadriculada gravatinha, nas cores preta cinza e vermelha - nossa garantia de não sermos barradas no portão.
E lá vinha Nizeth, toda impecável. Lá vinha Nizeth, compenetrada, engomada, lá vinha ela, com ares de princesa. Mas ao ultrapassar o portão, depois de contados dez passos, a me olhar de soslaio, arrancava do pescoço em um gesto debochado e orgulhoso, a forca. Era como ela se referia a gravatinha colorida que nos apertava o pescoço e nos fazia suar nos dias quentes de verão. Nizeth era ímpar. Agora, dois seres não menos marcantes entrarão nesta história. A mãe de Nizeth e seu cachorro. Grandes influências.

Chamava-se Zenith, a mãe de Nizeth. Esguia, pele branca, estatura avantajada - incomum nas mulheres - largas e bem demarcadas sobrancelhas pintadas de marrom, portava sobre o rosto seis graus de um vidro muito grosso que promovia em seus olhos um excessivo aumento. Muito embora seu aspecto avantajado, era comedida no vestir, muito Dior e cores clássicas, o que contrastava com a tintura ouro de seus cabelos que reluziam pelo pátio do colégio.
Eu ficava a imaginar quantos muitos frascos de laquê eram gastos para segurar o penteado - obra de arquitetura faraônica - aquela pirâmide de fios. A vasta cabeleira, redonda e alta a fazia ainda mais longelínea. Um verdadeiro capacete vestia a cabeça daquela mulher sem que houvesse no mundo vendaval que o derrubasse. E isso me impressionava muito. O fato é que não conseguia falar com Dona Zenith olhando-a nos olhos, pois me detinha a mirar seus cabelos a procura de algum fio fora do lugar.

Minha amiga Nizeth se mostrava cada vez mais EEDMDAPB. Por sua vez, a mãe ao perceber inútil a etiqueta de Sorbonne para educar a filha, partiu pra ignorância. Vieram os castigos mas como não surtiram efeito algum adotou outra tática de adestramento. As recompensas! Nizeth, com sua visão estratégica, logo inverteu o jogo. Cobrava da mãe as recompensas em troca de modos delicados: - eu quero um dobermann mamãe! E jurou de pés juntos: - um mês sem arrancar a gravata na escola!!! Nizeth e um Dobermann? Loucura fora de cogitação! A menina então, atriz de uma Ópera bizarra, despencou a chorar copiosamente. Jogava-se aos pés da mãe, suplicante e aos gritos, pelo cachorro. Devo dizer que cheguei a ficar com pena! Mas brilhante como era não se abateu, revoltou-se! E com resultado! Dona Zenith fora chamada ao colégio três vezes naquela mesma semana, justo quando a menina completaria sete anos.
Veio a surpresa. Numa tarde de domingo, na casa de Nizeth, esperávamos ansiosas pelo cachorro quente delicioso, que era elegantemente servido enquanto assistíamos à TV. Surge Dona Zenith, com uma das mãos escondidas nas costas e diz: - Aqui está filha adorada o que você mais queria. E mostrou-nos “aquilo” a quem doravante chamaríamos de cão. Era um pinscher miniatura.
A mãe colocou o animalzinho esquálido no colo de Nizeth que, com um sorriso amarelo, pronunciava entre dentes:
- Mas você acha, que eu acho, que isso é um cachorro mãezinha?
O minúsculo cão cabia em nossas pequeninas mãos. A pelagem era curta, dura, e bem assentada. A pele retesada e aderente, enaltecia a modelagem seca, seu aspecto refinado. A cor variava entre preto quase azul e marrom escuro, com marcação castanha, uma em cada bochecha e acima de cada olho. Duas marcas no ante-peito, pernas e patas, na face interna das coxas e sob a cauda. Enroscou-se no colo de Nizeth, aninhou-se.
- Podem chamá-lo de Grande informou sorridente Dona Nizeth, - uma “expert em dar nomes aos bois”. Estávamos perdidamente apaixonadas por aquela miniatura de animal que na verdade era uma tentativa de nos ludibriar.

Ora, já ouvi dizer que o dobermann é um pinscher gigante – ou melhor, pinscher é um dobermann anão, isso a gente viu de cara. Mas contávamos que talvez pudesse trazer no seu DNA as características do dobermann, cão apurado por Ludwig Von Dobermann, na Alemanha, em uma pacata região da cidade de Apolda, famosa por ser também a cidade natal de Lutero. Esse tal Von Dobermann, cobrador de impostos necessitava de um cão de guarda para protegê-lo de ladrões em suas andanças com muito dinheiro. Precisava de um cão que fosse rápido, ágil, inteligente, com uma poderosa mordida, que não temesse nada e fosse capaz de arriscar a própria vida se necessário. Legalmente habilitado a apanhar todos os cães perdidos, ele criou animais do seu plantel, escolhendo aqueles que possuíam as características do "cão ideal" que tanto procurava e criou assim os chamados "cães carniceiros". Apesar da literatura não eleger o Dobermann como o mais bravo, há indícios e comprovações científicas de que em época de calor eles são, sim, os cães mais perigosos por serem cães de laboratório. O cruzamento genético trouxe um probleminha quanto ao tamanho da caixa craniana em relação à massa encefálica. Exposto ao clima quente, o cérebro - do tamanho de sua cabeça em condições normais - sofre com a dilatação e a falta de espaço, causando muita cefaléia, o que pode deixá-lo totalmente louco, agressivo até mesmo com os donos.

Acabo de lembrar, a mãe de Nizeth havia entrado na sala novamente trazendo um manual sobre a raça pinscher. Imediatamente puxamos o livro de suas mãos e nos deparamos com a seguinte frase: Pinscher é uma palavra alemã que significa "mordedor, trapaceiro". Dona Zenith tranqüilizou-nos, dizendo que a senhora, dona do canil, assegurou se tratar de um cão dócil, amigo, companheiro. Falou a respeito dos antecessores e declarou a ela que na hora da escolha era importante conhecer, e saber mais, sobre o temperamento dos pais dos cães, afinal, pais equilibrados são indispensáveis para se obter um filhote de bom temperamento. Pois é, foi assim que dona Zenith despediu-se de nós três, com “ar de aeromoça”, dando instruções aos passageiros a respeito dos equipamentos de segurança: - Tudo depende da educação que será dada. Lembrem-se, meninas, que a educação interfere não só nos animais como nas pessoas.

Naquele instante, num rodopio malabarístico, Grande jogou-se do colo de Nizeth ao chão, esticou-se, levantou a cabeça para o alto começou a uivar para, logo em seguida latir freneticamente. E assim Grande, ao longo de seis meses, despontou como um aventureiro que sem temer cachorro grande, encarava até caminhão. Tive que concordar com Dona Zenith: era preciso cautela e pulso firme a despeito do tamanho do pequeno mamífero latidor.

O pulso firme logo se mostrou necessário. Se havia uma coisa que Grande não gostava era de ser contrariado. Certa vez, Dona Zenith, para receber em sua casa o Cônsul da Itália, transformou seu apartamento da Avenida Viera Souto numa réplica do Castelo de Versalhes e Grande - hiperativo e histriônico - foi terminantemente proibido de entrar no salão pois, certamente, atormentaria os convidados. Contra nossa vontade, e a dele também, ficou preso no quartinho dos fundos.

Era uma noite quente de verão, muito quente. A recepção transcorria dentro do cerimonial de gala dos salões refrigerados. Enquanto aproveitávamos ares suíços, imaginava o Grande preso em altas temperaturas com seu pequeno cérebro a dilatar no quartinho escaldante.

Já era bem tarde e o jantar teria sido um sucesso se, embaixo da cadeira da Consulesa, não tivéssemos avistado Grande a deleitar-se com o que nos parecia uma espécie de algodão, restos de papel, ou uma pequena toalha colorida salpicada de vermelho. Estávamos confusas, Nizeth e eu, pois a estas horas abrir os olhos era tarefa difícil. Sonolentas, nos aproximamos de Grande e identificamos o objeto com o qual ele se satisfazia. Era um absorvente com abas todo ensangüentado que com tamanha fúria ele destroçava fazendo voar lascas pelo tapete persa. E tudo isso se deu no centro da pequena roda que se fizera na sala de estar onde, naquele exato momento, todos elogiavam a bela recepção degustando um licor raro. Envergonhada, Dona Zenith colocava suas mãos sobre o volumoso penteado enquanto Nizeth, em movimentos lentos, exausta, arrancava os três laços de fita dos cabelos e despenteada, me puxava pelo braço. Olhou para sua mãe e com uma gostosa risada, disse baixinho: - Euforia mamãe!
Percebendo ali, que sua mãe espumava e, definitivamente, não a entendia, esforçou-se em traduzir o conselho: - Euforiaaaaaa! Eu se fosse você, ria!
E saímos Nizeth, eu e Grande, ainda com pedaçinhos do absorvente grudados no canto da boca, deixando Dona Zenith, mais uma vez, à mercê de sua própria invenção!
Naquela noite, mesmo sonolenta, finalmente pude ver a cabeleira de Dona Zenith desmantelar-se.

De - zen - cantada


Cantador, como um duende
percorreu minha floresta
espalhou pó de euforia
e bebeu cada nascente

cantador, tão de repente
assanhou minha floresta
fez de mim sua iguaria
fez meu corpo virar festa

a grama virar cama
a cama virar amor
e depois, não me queria
cantador desencantou

passaredo na poesia
bebeu água e se afogou
meu bando não sabia
que amar traria dor

e o canto persistia
o cantar do cantador
e meu corpo em desvario
se perdeu, se arrebentou

mas ao nascer do outro dia
cantador desafinou
mais do que a ele, eu me queria
eu cantei pro cantador

e como em mim, já mais eu cabia
cantador se apaixonou
numa antropofagia
o seu canto o devorou

se desfez a fantasia
chora, grita, canta a dor
sua sombra é traiçoeira
seu encanto é traidor